Todo dia, marcando presença em seu posto, João reclama de dores. Reclama da vida em mais um dia que deveria passar direto, sem escalas. Dias ruins, com Sol brilhando para poucos. Dia bom, para ele, era aquele que não era útil – dias úteis só serviam para que ele trabalhasse em coisas úteis somente aos outros. Em seu umbigo, João pensava:
- Útil para quem? Para mim é que não.
Num dia não obstante do seu hoje, leitor, João trabalha sem querer trabalhar. O padrão. João olha as pessoas ao redor e não se enxerga no mundo delas.
- É evidente que não sou igual a elas.
João, o diferente, pensa que o mundo seria ótimo se todos fossem iguais a ele. Ninguém precisaria dar bom dia, nem viver na expectativa de aturar as falsidades da imensa maioria da população que troca sorrisos por favores. Sem comunicação, sem dor. Apenas descanso para seus corpos cansados de não fazer absolutamente nada.
João sai de seus devaneios, marcados pelo compasso da batida de sua caneta na mesa para lembrar que o mais desagradável ainda está por vir. Pedro, o novato, chegará logo. Pedro, pensa ele, tem aquele sorriso de quem ganhou na loteria, o dia inteiro. Ri, se diverte, faz o que gosta. Mentiroso. Falso. Ninguém ri desse jeito, ninguém aguenta ficar sorrindo como se não houvesse nada de errado em sua vida. João olha o relógio, protocolando em seus ponteiros a chegada de Pedro.
- Bom dia, João.
João olha de relance, encara o sorriso de Pedro e relutante, responde secamente – Bom dia, Pedro.
- Tudo bem com você?
- O de sempre, o de sempre.
- Comigo está tudo certo.
“E quem te perguntou?”, se fosse uma faca, este pensamento cortaria o coração de Pedro. As horas passam, o dia de trabalho se arrasta dentro da mente de João. Horas, minutos, segundos. Ah, os segundos! Passam devagar para os necessitados de sua pressa. “Mais uma hora, mais uma hora e eu estou livre”.
João não é um homem ruim. É apenas desmotivado. Sua hora chegou, um dia fora como Pedro, mas sinceramente não se lembra. Se ao menos se lembrasse não guardaria tanto rancor da vida, talvez até pudesse resgatar o que poderia ser. João quer ser Pedro mas não tem forças, só almeja um apito final de um certame que tem final certo: seu descanso.
Mas, nesse dia como tantos outros, um detalhe a mais apimenta esse relato. A paciência de João parece ter chegado em seu limite. O estresse com o trabalho, o estresse com a vida, o estresse com o Pedro! Ah, Pedro, o bode expiatório. O simbolismo de tudo que João odeia. Não existe, segundo ele, tanta espontaneidade, com certeza é falsidade. Lobo na pele de cordeiro.
- O que foi, João? Aconteceu alguma coisa?
- Pedro, meu caro. Posso ser franco?
- Pode, lógico, sempre pôde. Estou aqui se precisar de mim. – e sorri, aumentando ainda mais o ódio de João.
Com rancor acumulado, João dispara um violento torpedo da verdade contra Pedro, utilizando palavras espaçadas e hidrofóbicas:
- Por que raios você sorri o tempo todo?
- Veja, meu caro… – responde Pedro, inclinando seu corpo para mais perto do colega, como se estivesse prestes a contar um grande segredo – Eu sorrio porque sou feliz. Eu que te pergunto, por que eu não deveria sorrir o tempo todo? Porque te incomoda? Mas saiba que não sorrio para te incomodar. Sorrio, também, para que você saiba que, apesar de todos termos pesos para carregar nesta vida, se os dividirmos fica mais fácil para todos. Meu sorriso é para te ajudar, não para te destruir.
Não foi somente um segredo, e sim também uma flechada no alvo. João sai do trabalho neste momento decidido a mudar o que está errado. João muda sua narrativa do presente para o futuro. Pedro não vai saber – quem sabe imaginará - mas será responsável pelo pedido de demissão de João. Mas não por depressão, ou por ter levado uma pancada violenta que sentira ter mais verdade que em todos os outros que analisara nos últimos tempos, mas sim porque Pedro, o carregador, o mostrou naquele momento que não existia só um caminho. João sorrirá, no futuro, e agradecerá ao jovem Pedro por ter aliviado um pouco do seu peso:
- Obrigado, seu imenso filho da puta. – dirá sorrindo, imaginando que agora será sua vez de tentar partilhar um pouco do peso de outrém em outro posto que combinasse mais consigo.