A vida como ela não deveria ser

Terça-feira, 19.08.2008

     Não é o ônibus lotado que me deixa com raiva. Não mesmo, eu já me acostumei com isto. Desde criança eu me aventuro nos ônibus, tentando sempre conseguir um lugar perto da janela. O vento sempre foi meu aliado contra o enjôo.

     Não é (ou era) o meu pequeno tocador de música portátil (e sim, isso é frescura minha, estou tentando abolir dos meus escritos palavras totalmente estrangeiras) que me deixa(va) com raiva. Apesar da tela quebrada e do fone que quase sempre falha(va). O que importa é que sempre serviu ao seu propósito. Também não é o celular que eu consegui emprestado que me deixa chateado. Aliás, nem o fato de ter que pedir um celular emprestado enquanto conserto o meu me deixa chateado. A vida é muito mais do que isso.

     Quando eu desci do ônibus, guardei minhas coisas dentro do bolso, como sempre faço. Quase ninguém na rua, exceto aquele único cara que passou por mim, de bicicleta. Eu sempre olho esses caras com um certo receio. Aqui em Fortaleza, a maioria dos ladrões pés-de-chinelo que encontramos por aí usa um revólver quase caseiro e uma bicicleta (além de um comparsa, esperando na próxima esquina). E o receio me disse pra tomar cuidado. Olhei para trás e vi que o tal carinha sumira. Ótimo, pensei.

     Não é o fato de eu ter sido assaltado que me deixou com raiva, não, senhores. Eu segui o meu caminho e na frente da minha casa, tocando a campainha para chamar minha avó, fui abordado pelo cara de quem falei há pouco. Não vi se estava realmente armado, mas só a sugestão foi o suficiente para que eu não fizesse nada. Levou meu celular, quer dizer, o celular da Ivonete e o meu tocador. E o que me deixou realmente com raiva foi isso: o fato de ter sido assaltado em frente de casa, sendo abordado enquanto esperava para que abrissem o portão. É ridículo demais ouvir um parente seu perguntando quem estava na porta, enquanto você não pode responder com medo de que façam algo.

     Eu gravei o rosto do tal elemento. Para ajudar a polícia se um dia o mesmo for preso (eles sempre são). E nesse dia eu acabo descontando a minha raiva. Eu não sou perfeito, não sei deixar de lado coisas desse tipo.

     Nesse dia, também, eu desconto ainda a raiva que tive no dia seguinte, no caso, hoje. Porra, Brasil, perder de três da Argentina não dá!


Dinamismo

Sábado, 2.08.2008

     Sábado, aproximadamente dez horas da manhã. Ele sentou na cadeira reservada da sala e ligou o computador. Os tempos mudaram e agora só precisou de cinco segundos para que pudesse estabelecer a conexão com aquele famoso comunicador instantâneo. Olhou sua lista de contatos e verificou quem estava disponível.

     - Ei cara.
     - Diz cara. -
Respondeu o amigo, do outro lado da rede.
     - Tudo certo?
     - Tudo certo, cara. E por aí?
     - Aqui tá tudo bem. Como foi a saída ontem?
     - Ah, cara, foi muito bom. Eu acabei “ficando” com aquela gata que te falei outro dia.
     - Qual delas?
     - Essa aqui, olha só. -
Disse, abrindo seus arquivos e enviando para o amigo a foto tirada há pouco tempo, naquele grande shopping da cidade. - Linda, não é?
     - Muito, cara, valeu!
     - É, é, sou mais eu, cara!

     Naquele momento, eu passei pela sala e vi a cena e partes da conversa. Pura invasão de privacidade de um irmão mais novo. Não me contive, andei até o corredor que leva até o quintal da nossa casa e subi no muro de aproximadamente um metro e sessenta centímetros. No alto dele, olhando para a casa do meu vizinho, o amigo do meu irmão com quem ele estava conversando, disse:

     - Vocês não têm vergonha de conversar pela internet estando há poucos metros um do outro?

     Os tempos mudaram. O dinamismo é o novo imperador e eu rezo para que a solidão não se torne sua imperatriz.

Respirar é necessário.

Respirar é necessário.