Na famosa história infantil, João e Maria tentam deixar um rastro de miolo de pão para serem encontrados futuramente. O problema dos dois era não prever a chegada dos pássaros que comeriam tudo.
É clichê comentar isto, mas aquele era um começo de manhã como tantos outros. Nenhuma particularidade, nenhum detalhe além do padrão. Até o meu velho enjôo matinal estava presente, para minha infelicidade. Me vesti e, como bom homem de negócios, rumei ao trabalho.
Aquele transporte parecia o de sempre. Até as mesmas pessoas que sempre pegavam o coletivo no mesmo horário que eu. Os mesmos cumprimentos, as mesmas saudações, tudo era mais e mais do mesmo. Imaginei que realmente seria mais um daqueles dias rotulados, ou seja, padronizados ao extremo, onde em quase todos os momentos podemos imaginar qual será o próximo movimento ou fala. Ao ver um garotinho com uma caixinha lotada de poucos tipos de doces entrar na lotação e por pensar que poderia realmente prever tudo naquele dia, imaginei a próxima fala do garoto:
- Eu podia estar matando. Eu podia estar roubando. Mas estou aqui, trabalhando para ajudar minha família. Um é cinquenta, três por um real ou um vale-transporte. Quem não puder me ajudar assim, que me ajude com vinte, dez centavos para completar minhas passagens. Muito obrigado!
Nessas horas nós todos viramos Joãos e Marias, dando miolos de pão, migalhas, na tentativa vã da salvação. O dinheiro suado que os garotos conquistam pela simpatia, por muitas vezes, acaba no bar mais próximo às suas casas, gastos em cachaça vagabunda. Eu não dou mais migalhas.
Enquanto eu me abstraía nos meus próprios pensamentos, o moleque começou seu discursso, encerrando minhas previsões e descaracterizando o dia, retirando o seu rótulo.
- Essa é a jujuba do menininho. Ela é doce, gostosa e nutritiva. Tem vitaminas A, B, C, Ferro e até Zinco, melhorando sua disposição e sua saúde. E não engorda! Quem engordar, por favor me comunique, que eu devolvo o dinheiro. Por apenas um real, você recebe dois pacotinhos e ganha mais um como brinde. Também aceitamos vale-transporte, visa e mastercard. Quem quiser, pode me mandar um e-mail pelo endereço “www.boteamãonoseubolsinhoetireodinheirinho.com.br”. Muito obrigado pela sua atenção!
Naquele momento tudo mudou. Eu mal conseguia acreditar que um garoto daqueles podia ter tanta genialidade pra inventar tudo aquilo diante das adversidades da vida, visíveis em todo o seu frágil corpo. Enquanto eu colocava os pensamentos em ordem por causa do riso e do espanto, observei que ninguém quis o doce. Ninguém.
Lágrimas infantis brotaram dos seus olhos. Ali a genialidade da necessidade deu lugar ao desespero. O garoto lançara suas migalhas de pão e, aterrorizado, via de longe os pássaros comendo tudo. Não havia salvação. Mesmo assim, conteve as lágrimas, suspirou forte e ficou pensativo. Tive um aperto no coração. A genialidade sempre passa despercebida até que algo ruim acontece com ela. O gênio dos doces, por causa dos pássaros, viraria o gênio do crime, se não tivesse a mente muito centrada. E centralidade, cá entre nós, é difícil quando você tem desejos negados.
Chamei o garoto para perto de mim:
- Ei rapaz, vem cá.
- Pois… pois não, senhor?
- Me dá um aí, cara. Toma o dinheiro. Escuta, quantos anos você tem?
- Doze. - E aparentava oito ou nove, pensei.
- Cara, vai estudar. Você é muito esperto. Eu sei disso. Vai estudar e se livra dessa vida. Só metendo a cara nos livros é que você vai conseguir. E você tem futuro, você tem futuro.
- Mas eu estou de férias… - Disse-me, envergonhado. Ignorei que uma criança normal deveria estar aproveitando as férias e continuei.
- Mesmo assim! Estuda, cara. Se mata de tanto estudar. Você vai conseguir!
Nos despedimos, ele desceu e seguiu para a próxima lotação. No fim, aqueles eram os meus miolos de pão. Aquela opinião indigesta para o garoto, mas vital para mim. Vi aquele garoto como uma vela no meio do escuro. E rezo a Deus, desde então, que essa chama seja forte e que os pássaros procurem outro tipo de alimento e deixem em paz os meus miolos de pão, para que um dia João e Maria possam voltar seguros para casa, independentemente da continuação da história.

João e Maria à caminho da casa de doces - o doce do presente e o azedo do futuro